quarta-feira, 11 de maio de 2011

Uma reflexão sobre o caráter esquizóide

Alexander Lowen diz que a sociedade contemporânea possui fortes traços esquizóides, ao contrário da época de Freud, quando a principal questão era a histeria. Para compreender melhor esta afirmação devemos esclarecer o que significa este conceito. Na série: “Noções básicas sobre caráter”, existem algumas frases sobre este caráter que nos fornecem informações importantes, mas neste texto podemos refletir um pouco melhor sobre a sua dinâmica. Uma boa forma de começarmos é através da definição utilizada por Lowen:

“O termo “esquizóide” possui dois significados. Ele denota: (1) uma tendência do indivíduo a se retrair da realidade; (2) uma cisão na unidade da personalidade. Cada aspecto é um reflexo do outro. Estas duas variáveis constituem uma medida do grau de saúde ou enfermidade emocional da pessoa.” (p. 32)

Neste texto não discutiremos o conceito de realidade, que apesar de importante, não parece ter sido aprofundado pelo autor. Portanto, para não usarmos este conceito sem uma reflexão crítica, adotaremos o termo: realidade compartilhada, desta forma a realidade em si não é o mais importante, o fundamental é que ela pode ser compreendida e experimentada junto com os outros. Esta experiência nem sempre é vivida pelo sujeito que sente esta incapacidade de compartilhar e atuar como desesperadora, tornando a energia estagnada dentro do sujeito, afastando-a de seu núcleo criativo e alegre, provocando a ansiedade e o pânico.
A dinâmica de um sujeito predominantemente esquizóide pode ser percebida no seu corpo, o seu tipo físico típico é magro, teso e rijo. Isto demonstra uma baixa capacidade energética através de uma estrutura muscular que não se desenvolveu completamente. O indivíduo esquizóide é descrito como uma pessoa que não está ali, devido ao seu olhar ausente, seu rosto apático e sua falta de espontaneidade. Outra característica importante é a sua incapacidade de sentir prazer, isto faz com que ele não consiga atuar sobre o mundo, o seu impulso de prazer não consegue ser assimilado e vivido pelo seu corpo. A autorpercepção disfuncional é uma questão central no esquizoide, ao perceber seu corpo como estranho, ele não consegue saber quem é, seu corpo sem vida pode ser muito rígido ou muito fragmentado, evidenciando uma ausência de vivacidade.
Este comprometimento da vitalidade corporal e do desenvolvimento físico está relacionado com o seu precário desenvolvimento psíquico, seu ego não é capaz de se desenvolver plenamente, e portanto não é capaz de canalizar seus desejos até o mundo exterior, isto faz com que a realidade interior se dissocie da realidade compartilhada. Uma vez que seu desejo é incapaz de adquirir forma, ou seja, ser representado materialmente, é necessário que ele continue existindo no seu mundo interno distanciando-se da realidade compartilhada. Este movimento não é realizado sem um conflito interno muito forte para ser confrontado, provocando uma cisão da personalidade. Isto é o contrário do esperado para um ego saudável que funciona como uma extensão do princípio de prazer, no esquizóide o ego não se constitui, portanto, o caminho para o desejo se manifestar também não. O sentimento de prazer nos aproxima do nosso corpo e torna fácil a identificação com ele, é fácil compreender esta dinâmica, um corpo que permite o fluxo de prazer é forte e espontâneo, suas sensações são extremamente gratificantes, enquanto que um corpo dividido percebe o corpo como fonte de dor e incômodo, o que motiva o ego a se dissociar dele.
Este desenvolvimento precário acontece a partir das experiências que ele viveu durante o seu crescimento:


 “Quando crianças, essas pessoas caracterizam-se por sua insegurança; quando adolescentes, pela ansiedade; e quando adultas, por um sentimento interior de frustração e fracasso. Estas reações são mais sérias do que as palavras deixam transparecer. A insegurança infantil está relacionada com a sensação de ser diferente e de não pertinência. A ansiedade adolescente está a beira do pânico e pode terminar em terror. O sentimento adulto de frustração e fracasso possui um núcleo subjacente de desespero.” (p. 42)

               Temas como insegurança, frustração e fracasso fazem parte da maioria das pessoas que conhecemos, por isso, muitas vezes não damos a importância adequada para estas questões, muitas vezes, elas fazem parte da nossa história, no entanto, como terapeutas e amigos, devemos estar sempre atentos para influência destes temas na vida de nossos amigos e colegas para que possamos acolher seus sentimentos de forma adequada, porque esta é a única possibilidade de transformá-los.

Referência Bibliográfica:

Alexander, LOWEN (1967). O corpo traído. 6Ed. Summus: São Paulo, 1979.

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