É frequente a descrição que alguém “parecia estar possuído
por um demônio”. Em pessoas religiosas isto é uma forma de descrever um
comportamento hostil que lhe parece incompreensível, e algumas pessoas que não
praticam nenhuma religião também recorrem a estes termos para descrever um
comportamento que não conseguem entender e lhes parece estranho. Algumas vezes,
esta descrição pode ser feita pela pessoa que realizou um ato que não é capaz
de compreender: “Parecia que eu estava possuído”, ela pode vir a dizer.
Esta forma
de agir é frequentemente encontrada em indivíduos esquizóides, portanto, é
importante refletir sobre como este demônio pode se constituir. Ele age contra a ilusão e reduz o indivíduo
ao desespero através do cinismo e da dúvida. Esta força é o corpo que foi
rejeitado e volta à consciência para destruir a imagem do ego que se afrouxa.
Ele se desenvolve a partir de uma educação repressora que obriga a criança à
abrir mão do seu corpo em nome da sobrevivência, ele reprime seus desejos para
ganhar o amor dos pais:
“Isolados e
enclausurados, os instintos da sexualidade e agressão lentamente se transformam
em perversão e ódio.” (p. 132)
A repressão faz com que
a criança entre em conflito com seus pais que não deixam que ela sinta prazer e
se auto-regule. Incapaz de satisfazer suas necessidades de prazer, a energia se
transforma em perversão, e o comportamento da criança passa a ser encarado como
“um diabinho”, os pais não aceitam o desejo de independência do filho, e negam
a sua individualidade porque são incapazes de lidar com as suas. Esta atitude
perversa é consequência do fim da esperança que seus pais irão compreender seus
desejos. Este conflito conservará uma rebeldia interna que irá florescer na
adolescência, quando aumenta o desejo de independência, a guerra será
atualizada e os dois lados se tornarão mais hostis.
“Em tais situações, quando finalmente se
chega a uma trégua, a pessoa mais jovem terá perdido a sua identidade e os
sentimentos bons do seu corpo. Ela é então dominada por uma desesperação
silenciosa ou ativa, e desenvolve uma personalidade esquizóide. Os pais terão
perdido o amor do seu filho, e são incapazes de compreender a evolução deste
fato.” (p. 133)
Este conflito desenvolve
no esquizóide uma fúria reprimida, que em alguns momentos se liberta e se
manifesta através de um impulso destrutivo que não pode ser controlado. Para se
defender desta fúria, ele imobiliza o seu corpo, a mesma defesa usada contra o
terror (o que demonstra que os dois estão relacionados). O surgimento destes
sentimentos são consequências da educação que recebeu, a fúria é uma reação à
falta de reconhecimento de sua individualidade e de seus desejos, ele briga
para ser reconhecido, o que provoca uma reação hostil por parte dos pais que
novamente não o reconhecem, e ele se sente isolado mais uma vez. A saída usualmente
encontrada é uma falsa submissão aos pais que só irá deixar escapar a raiva
através de um comportamento perverso que permite a expressão de seus
sentimentos negativos.
O indivíduo então se
torna incapaz de respostas moderadas à situações diversas, como uma bomba, ele
explode, ou não. Todas suas decisões são encaradas como um “caso de vida ou
morte” uma vez que a decisão de agir ou não, está relacionada com a fúria suprimida.
Entrar em contato com os sentimentos é algo perigoso porque mesmo um contato
mínimo pode liberar toda a carga que foi reprimida. Nesta dinâmica, ele
desenvolve o comportamento paranóide que projeta sobre os outros os sentimentos
negativos ligados à sexualidade e à hostilidade, e quando encontra resistência,
explode em fúria irracional desconectado da sua responsabilidade com as suas
ações. Sua expressão corporal parece de um demônio:
“Seus olhos assumem um
olhar malévolo, as suas sobrancelhas arqueiam-se para cima, e os seus lábios
são puxados para trás numa mistura de sorriso e grunhido. As figuras de
demônios e bruxas derivam de tais expressões. Em outros momentos, o seus rosto
assume uma aparência angelical, que, de alguma forma, não consegue ser
convincente.” (p. 139)
Ao rejeitar os
sentimentos positivos dirigidos à ele através do cinismo que os julga
desprovidos de significados, ele repete a estratégia elaborada na infância para
sobreviver, sem tomar consciência deste ato, não há como superar a força
demoníaca que existe nele.
Referência bibliográfica:
- Alexander, LOWEN
(1967). O corpo traído. 6a Ed. Summus: São Paulo, 1979.
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