sábado, 7 de janeiro de 2012

Como criar um demônio


           É frequente a descrição que alguém “parecia estar possuído por um demônio”. Em pessoas religiosas isto é uma forma de descrever um comportamento hostil que lhe parece incompreensível, e algumas pessoas que não praticam nenhuma religião também recorrem a estes termos para descrever um comportamento que não conseguem entender e lhes parece estranho. Algumas vezes, esta descrição pode ser feita pela pessoa que realizou um ato que não é capaz de compreender: “Parecia que eu estava possuído”, ela pode vir a dizer.
            Esta forma de agir é frequentemente encontrada em indivíduos esquizóides, portanto, é importante refletir sobre como este demônio pode se constituir. Ele age contra a ilusão e reduz o indivíduo ao desespero através do cinismo e da dúvida. Esta força é o corpo que foi rejeitado e volta à consciência para destruir a imagem do ego que se afrouxa. Ele se desenvolve a partir de uma educação repressora que obriga a criança à abrir mão do seu corpo em nome da sobrevivência, ele reprime seus desejos para ganhar o amor dos pais:
            “Isolados e enclausurados, os instintos da sexualidade e agressão lentamente se transformam em perversão e ódio.” (p. 132)
            A repressão faz com que a criança entre em conflito com seus pais que não deixam que ela sinta prazer e se auto-regule. Incapaz de satisfazer suas necessidades de prazer, a energia se transforma em perversão, e o comportamento da criança passa a ser encarado como “um diabinho”, os pais não aceitam o desejo de independência do filho, e negam a sua individualidade porque são incapazes de lidar com as suas. Esta atitude perversa é consequência do fim da esperança que seus pais irão compreender seus desejos. Este conflito conservará uma rebeldia interna que irá florescer na adolescência, quando aumenta o desejo de independência, a guerra será atualizada e os dois lados se tornarão mais hostis.
“Em tais situações, quando finalmente se chega a uma trégua, a pessoa mais jovem terá perdido a sua identidade e os sentimentos bons do seu corpo. Ela é então dominada por uma desesperação silenciosa ou ativa, e desenvolve uma personalidade esquizóide. Os pais terão perdido o amor do seu filho, e são incapazes de compreender a evolução deste fato.” (p. 133)
            Este conflito desenvolve no esquizóide uma fúria reprimida, que em alguns momentos se liberta e se manifesta através de um impulso destrutivo que não pode ser controlado. Para se defender desta fúria, ele imobiliza o seu corpo, a mesma defesa usada contra o terror (o que demonstra que os dois estão relacionados). O surgimento destes sentimentos são consequências da educação que recebeu, a fúria é uma reação à falta de reconhecimento de sua individualidade e de seus desejos, ele briga para ser reconhecido, o que provoca uma reação hostil por parte dos pais que novamente não o reconhecem, e ele se sente isolado mais uma vez. A saída usualmente encontrada é uma falsa submissão aos pais que só irá deixar escapar a raiva através de um comportamento perverso que permite a expressão de seus sentimentos negativos.
            O indivíduo então se torna incapaz de respostas moderadas à situações diversas, como uma bomba, ele explode, ou não. Todas suas decisões são encaradas como um “caso de vida ou morte” uma vez que a decisão de agir ou não, está relacionada com a fúria suprimida. Entrar em contato com os sentimentos é algo perigoso porque mesmo um contato mínimo pode liberar toda a carga que foi reprimida. Nesta dinâmica, ele desenvolve o comportamento paranóide que projeta sobre os outros os sentimentos negativos ligados à sexualidade e à hostilidade, e quando encontra resistência, explode em fúria irracional desconectado da sua responsabilidade com as suas ações. Sua expressão corporal parece de um demônio:
            “Seus olhos assumem um olhar malévolo, as suas sobrancelhas arqueiam-se para cima, e os seus lábios são puxados para trás numa mistura de sorriso e grunhido. As figuras de demônios e bruxas derivam de tais expressões. Em outros momentos, o seus rosto assume uma aparência angelical, que, de alguma forma, não consegue ser convincente.” (p. 139)
            Ao rejeitar os sentimentos positivos dirigidos à ele através do cinismo que os julga desprovidos de significados, ele repete a estratégia elaborada na infância para sobreviver, sem tomar consciência deste ato, não há como superar a força demoníaca que existe nele.

Referência bibliográfica: 
- Alexander, LOWEN (1967). O corpo traído. 6a Ed. Summus: São Paulo, 1979.

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