terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O prazer que ameaça


Tomar consciência de um comportamento é importante para que ele seja repetido ou descartado. Consciência e saúde deveriam caminhar juntas, mas nem sempre isto ocorre, é comum alguém ter consciência de um comportamento é autodestrutivo e se sentir impotente diante da possibilidade de abandoná-lo. Freud criou um conceito para descrever o fenômeno: repetição compulsiva, que depois evoluiu para o instinto de morte. Quando refletimos sobre a dinâmica esquizóide, podemos compreender porque algumas pessoas apresentam dificuldade em abandonar o que elas fazem de mal para si.

A cisão na personalidade esquizóide não permite que ele integre algumas experiências prazerosas, isto transforma algo bom em ruim, que não pode ser suportado, e ameaça a estabilidade de quem vive com pouca energia para não viver o medo que se esconde sob a superfície. O prazer expande o organismo porque intensifica a respiração e facilita movimentos espontâneos, algo ameaçador para o esquizóide que não conhece uma espontaneidade desprovida de medo, que aterroriza a sua consciência e inibe suas escolhas.

Diante destas pessoas, podemos ter a impressão que seu sofrimento vem da incapacidade de abandonar estes comportamentos destrutivos, porém, é seu sofrimento que gera esta incapacidade. O conhecido sentimento de medo não permite que o prazer seja integrado, e se torne referência para a experiência de novas situações, seu corpo cindido faz com que ele fique incomodado diante de uma nova experiência agradável:

“O fato de pessoas serem autodestrutivas indica a presença de uma força na personalidade que dissipa a energia vital do organismo. Tal força antivida aparece na personalidade esquizóide, mas é o resultado direto da cisão esquizóide, e não a sua causa.” (p. 99)

A falta de conexão com as pernas, faz com que ele não consiga suportar o novo fluxo de energia, nesta lógica, a conexão com o chão é angustiante e dificulta a possibilidade do grounding acontecer. Insistir, brigar e forçar não acolhem quem já se sente isolado, é preciso sentir seu sofrimento e compreender sua dificuldade, o que pode ajudar ele a tomar posse de sua identidade e transformá-la no futuro. Reprovar faz com que ele caia na solidão que busca evitar, ampliando seu sentimento de medo e paralisando ainda mais seus desejos e o seu corpo.


Referência bibliográfica:

- Alexander, LOWEN (1967). O corpo traído. 6a Ed. Summus: São Paulo, 1979.

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